23 de setembro de 2026

Setembro Amarelo: quando conscientizar já não é suficiente

Todos os anos, quando setembro chega, empresas, escolas, instituições e redes sociais se vestem de amarelo. Distribuímos laços, bombons, colocamos camisetas, decoramos os ambientes e compartilhamos mensagens sobre valorização da vida. Não vejo problema na cor, no laço ou no bombom. Eles podem abrir uma conversa importante. Minha preocupação começa quando confundimos essas ações com […]

Todos os anos, quando setembro chega, empresas, escolas, instituições e redes sociais se vestem de amarelo. Distribuímos laços, bombons, colocamos camisetas, decoramos os ambientes e compartilhamos mensagens sobre valorização da vida.

Não vejo problema na cor, no laço ou no bombom. Eles podem abrir uma conversa importante. Minha preocupação começa quando confundimos essas ações com prevenção.

Porque falar sobre suicídio é necessário. Dar visibilidade ao sofrimento emocional é necessário. Reduzir o estigma também é. Mas, depois de tantos anos de Setembro Amarelo no Brasil, talvez seja hora de fazermos uma pergunta um pouco mais difícil: o que acontece depois que conseguimos chamar a atenção das pessoas?

Os estudos mais recentes sobre a campanha brasileira trazem elementos importantes para essa reflexão.

Uma pesquisa publicada em 2024 analisou as taxas de suicídio no Brasil entre 2011 e 2019 e verificou que a implantação nacional do Setembro Amarelo não modificou de maneira significativa a tendência histórica de crescimento das mortes por suicídio. Os próprios autores chamam atenção para uma questão que considero central: campanhas concentradas em publicidade e conscientização, quando não acompanhadas de ações multissetoriais, capacitação profissional e ampliação da rede de cuidado, têm limitações importantes. (PubMed Central (PMC))

Em 2025, outro grupo de pesquisadores tentou responder à mesma pergunta utilizando uma metodologia diferente. O estudo construiu uma espécie de “Brasil comparável”, utilizando dados de outros países latino-americanos para estimar o que poderia ter acontecido sem a campanha. Mais uma vez, não foi encontrada evidência estatisticamente significativa de redução das taxas de suicídio atribuível ao Setembro Amarelo. Isso não significa que a campanha aumente o número de suicídios. Significa algo bem diferente: até agora, não temos evidências suficientes para afirmar que o modelo adotado tenha reduzido a mortalidade por suicídio no país. (Periodikos)

Outra pesquisa, que analisou dados brasileiros entre 2000 e 2019, encontrou crescimento das taxas no período posterior ao início da campanha. Mas aqui precisamos ter responsabilidade ao interpretar ciência. Trata-se de um estudo ecológico e os próprios pesquisadores alertam que não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito. Portanto, seria incorreto afirmar que o Setembro Amarelo provocou esse aumento. O que os resultados permitem — e exigem — é questionar a efetividade das estratégias utilizadas e continuar investigando inclusive possíveis efeitos não intencionais. (ScienceDirect)

E há uma contribuição muito recente que considero especialmente importante. Em junho de 2026 foi publicado antecipadamente um estudo qualitativo sobre a percepção de pacientes psiquiátricos brasileiros de alto risco a respeito do Setembro Amarelo. Pela primeira vez entre esses trabalhos recentes, o olhar se aproxima de quem vive concretamente o sofrimento e o risco suicida. Em vez de observar apenas números, alcance ou campanhas, os pesquisadores colocam no centro pessoas com experiência vivida. (PubMed)

Tudo isso nos leva a uma reflexão que ultrapassa o Setembro Amarelo.

Amarelo não é prevenção.
Bombom não é prevenção.
Camiseta amarela não é prevenção.
Laço amarelo não é prevenção.

Eles podem fazer parte da comunicação. O problema é quando passam a representar praticamente toda a estratégia.

A Organização Mundial da Saúde é bastante cuidadosa nesse ponto. Em suas recomendações, afirma que as evidências disponíveis sobre campanhas de mídia isoladas, voltadas apenas à conscientização da população sobre suicídio e sua prevenção, são insuficientes para recomendar essa estratégia como forma de reduzir mortes, tentativas de suicídio ou autoagressão. Por outro lado, a OMS recomenda fortemente uma comunicação responsável sobre suicídio, que evite sensacionalização e apresente informações concretas sobre onde procurar ajuda. (Organização Mundial da Saúde)

Essa diferença é enorme.

Podemos alcançar milhares de pessoas com uma campanha e, ainda assim, não saber se conseguimos aproximar do cuidado justamente quem precisava dele. Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou 14 estudos sobre campanhas de saúde mental realizadas nas redes sociais. Todas conseguiram algum tipo de engajamento. Mas apenas um dos 14 estudos avaliou formalmente comportamento de busca por ajuda. (PubMed)

Curtida não é cuidado. Compartilhamento não é encaminhamento. Alcance não é prevenção.

Prevenir exige que alguém saiba reconhecer sinais de sofrimento, que uma pessoa preparada consiga acolher uma revelação difícil, que existam caminhos claros de encaminhamento e que, ao procurar ajuda, aquela pessoa encontre uma rede capaz de recebê-la e acompanhá-la.

Nas empresas, essa reflexão se torna ainda mais necessária. Não basta fazer uma palestra em setembro se, diante de um colaborador em sofrimento, ninguém sabe o que fazer. Não basta distribuir uma mensagem sobre pedir ajuda se as pessoas não sabem onde essa ajuda está. Não basta incentivar alguém a falar se quem vai escutar não está preparado para receber essa fala.

Talvez o Setembro Amarelo não precise de mais amarelo. Precise de mais preparo, mais acesso, mais responsabilidade e mais continuidade.

Não por acaso, o tema mundial definido pela OMS para o período de 2024 a 2026 é “Changing the Narrative on Suicide” — “Mudar a narrativa sobre o suicídio”. Em 2026, a própria organização reforça que mudar essa narrativa também significa promover mudanças sistêmicas: políticas baseadas em evidências, acesso a cuidados de qualidade e garantia de apoio às pessoas em sofrimento. (Organização Mundial da Saúde)

Talvez essa seja uma boa oportunidade para mudarmos também a nossa pergunta.

Em vez de perguntar “o que vamos fazer no Setembro Amarelo este ano?”, podemos começar perguntando:

“Se alguém pedir ajuda depois da nossa campanha, nós sabemos o que fazer?”

Porque conscientizar pode ser o começo.

Mas prevenção precisa continuar depois que setembro termina.


Fontes e estudos consultados

Cruz, W. G. N. et al. (2024). Analysis of the impact of the Brazilian Suicide Prevention Campaign “Yellow September”: an ecological study. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 46, e20220564. (Periodikos)
Acessar o estudo

Silva, L. E. O. et al. (2025). Synthetic control method for evaluating mental public health policies: the case of Yellow September campaign in Brazil. Trends in Psychiatry and Psychotherapy. (Periodikos)
Acessar o estudo

Associations between a Brazilian suicide awareness campaign and suicide trends from 2000 to 2019: Joinpoint and regression discontinuity analysis. Estudo ecológico com dados do DATASUS. (PubMed)
Acessar o estudo no PubMed

Beiram, L. et al. (2026). High-risk psychiatric outpatients’ perspectives on Brazil’s Yellow September suicide prevention campaign. Journal of Affective Disorders. Publicação eletrônica em 18 de junho de 2026. (PubMed)
Acessar o estudo no PubMed

Draganidis, A.; Fernando, A. N.; West, M. L.; Sharp, G. (2024). Social media delivered mental health campaigns and public service announcements: A systematic literature review of public engagement and help-seeking behaviours. Social Science & Medicine, 359, 117231. (PubMed)
Acessar o estudo no PubMed

World Health Organization (2023). mhGAP guideline – Suicide prevention media campaigns. A OMS conclui que as evidências sobre campanhas de mídia isoladas são insuficientes para recomendar sua utilização como estratégia de redução de suicídios, tentativas ou autoagressão. (Organização Mundial da Saúde)
Consultar a recomendação da OMS

World Health Organization (2023). Preventing suicide: a resource for media professionals, update 2023. Orientações para comunicação responsável sobre suicídio. (Organização Mundial da Saúde)
Consultar a publicação da OMS

World Health Organization (2026). World Suicide Prevention Day 2026 — Changing the Narrative on Suicide. (Organização Mundial da Saúde)
Consultar a página oficial da OMS

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